Há lugar para a psicanálise no Século XXI? Sem dúvida, é uma das questões mais presentes no ambiente psicanalítico.

As dúvidas são pertinentes. A sociedade se modificou muito desde que a psicanalíse foi criada, ao redor dos anos 1.900, e a ciência enriqueceu o mundo com novos conhecimentos.  Esses novos conhecimentos ameaçam a psicanálise?

Já são duas perguntas sem resposta. Não é mais possível omitir uma opinião.

Para mim, sem sombra de dúvida, as respostas são: SIM e NÃO, respectivamente.

SIM, há lugar para a psicanálise no Século XXI. NÃO, os novos conhecimentos não ameaçam a psicanálise.

As justificativas para as duas afirmações são simples.

Para mim, o que diferencia o homem (ser humano) dos animais é a linguagem. Isto quer dizer que a necessidade humana de falar é imperiosa e, portanto, o homem sempre procurará  um caminho para suas angústias por meio da fala. A psicanálise é a terapia da cura pela fala. Portanto, ela oferece a todos nós uma alternativa compatível com a característica que nos distingue dos outros elementos do mundo animado.

Os novos conhecimentos proporcionados pela evolução científica não ameaçam a psicanálise. A psicanálise é uma ciência e, como tal, só pode se beneficiar do avanço científico. Ela tem a capacidade de evoluir com as novas descobertas.

É comum ouvir que a neurociência poderá explicar que a causa da depressão é uma disfunção neurológica de natureza X. Por que isso ameaçaria a psicanálise? Se a disfunção puder ser corrigida sem margem de erro por qualquer procedimento físico-químico, a psicanálise não se opõe. Pelo contrário, apóia. As perguntas a serem respondidas são: 1) Todas as disfunções poderão ser corrigidas, sem margem de dúvida, por procedimentos físico-químicos?; Todas os pacientes abrirão mão de sua natureza de homus loquax em favor de uma droga?

A psicanálise não pretende ser a única solução para os problemas dos seres humanos. Ela nem mesmo pretende ser uma solução. Ela é uma alternativa. Uma alternativa maldita, que responsabiliza o Homem pelos seus atos.

Talvez por isso, tentem desqualificá-la com tanta intensidade.

A psicanálise incomoda tanto porque desde o seu surgimento denunciou a sociedade. Tudo começou com a descoberta da sexualidade infantil; NOSSAS crianças nem são nossas, nem são anjinhos; e, …, nos tempos atuais, aponta para o vazio das pessoas e das relações.

Hoje mesmo, 17/10/2009, expresso meu desesepero: me cadastrei no Twitter e no Facebook. Ninguém me segue, ninguém me quer como amigo. Como viver esse vazio???

Há dúvida se há lugar para a psicanálise no Século XXI?

O que é o “Real”?

24 24UTC setembro 24UTC 2009

Fugindo um pouco da temática Edipiana, proponho uma rápida reflexão sobre o que é o “Real”?

Refiro-me ao conceito Lacaniano da tríade: Real, Simbólico e Imaginário.

É tido como o conceito mais difícil de ser explicado. No entanto, acho a explicação é simples se formos olhar em diferentes universos.

O primeiro universo é o de Kant que propôs o conceito de realidade e da coisa-em-si. Bion retoma este conceito e o simboliza por Ο (deveria ser um O caligráfico).

Freud utiliza muitas vezes o termo alma para designar o que anima o indivíduo, o próprio sentido de vida.

Proponho a equivalência: Real ↔ Ο ↔ alma.

O Édipo Feminino

10 10UTC setembro 10UTC 2009

Entre os temas da psicanálise mais fascinantes e menos compreendidos encontra-se o do Édipo feminino. Várias adaptações mal feitas do Édipo masculino podem ser encontradas na literatura que mais confundem do que esclarecem.

Uma explicação muito boa é a oferecida por J. D. Nasio, da qual reproduzo um breve resumo.

A travessia edípica da menina é dividida em quatro fases:

1. Tempo pré-edípico: a menina por volta dos 4 anos sente excitações clitorianas. Tem um Falo, está orgulhosa dele e se sente onipotente. Como um menino deseja possuir a mãe. A menina é um menino.

2. Tempo da solidão: diante de um menino nú, descobre que não tem o Falo. Sofre por estar desprovida dele. Se dá conta que sua mãe também está desprovida dele. A culpa por tê-la feito acreditar que as duas o possuiam. A mãe a enganou. Ressentida, se afasta da mãe. Agora se sente só e humilhada. Está ferida em seu amor próprio. Inveja o menino.

3. Tempo do Édipo: a menina volta-se para o pai, grande portador do Falo. No entanto, invejosa e ansiosa, exige que ele o dê. Ele nega. A menina compreende que nunca possuirá o Falo. Pede para que o pai a console. A ansiedade se transforma em desejo. A menina já não quer o Falo do pai; quer sê-lo; quer ser a preferida do pai. Desta forma, a menina se identifica com a mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade. A menina deseja ser possuída pelo pai.

4. Resolução do Édipo: o pai se nega. A menina dessexualiza o pai, mas incorpora a sua pessoa. Pouco a pouco a menina se faz mulher e se abre ao homem amado. Deixa de medir o seu sexo com um Falo mítico e descobre a vagina, o útero e o desejo de levar em seu ventre o filho de seu companheiro.

Na prática o clínica o Édipo feminino se manifesta de várias maneiras. É claro que não há um padrão, uma vez que as perturbações da travessia edípica podem se dar de diversas formas. No entanto, é muito comum o sintoma da mulher moderna, ativa, que priorizou a vida profissional. É possível reconhecer uma regressão ou fixação edípica?

A Deriva

24 24UTC agosto 24UTC 2009

a-deriva-poster01

O novo filme de Heitor Dália, diretor também do Cheiro do Ralo, é uma ótima opção para ir ao cinema. Além da fotografia que é bastante poética, do figurino que vai trazer lembranças para que viveu na década de oitenta, o filme tem um roteiro repleto de dilemas adolescentes e adultos.

Felipa é uma adolescente de 14 anos que passa as férias de verão com a família em uma casa na praia. O pai é um famoso escritor frances, a mãe professora e seus dois irmãos mais novos. Em meio a suas descobertas amorosas, primeiro beijo, transformação do corpo e brigas constantes dos pais a menina descobre que eles estão prestes a se separar.

O filme envolve inúmeros conflitos internos e externos. Felipa está em transição com o corpo e a mente, deixa de ser uma criança para se tornar uma mulher e passa a se envolver com todo tipo de responsabilidade e questões que essas mudanças requerem. Tomar atitudes, formar opiniões, fazer escolhas e aceitar as perdas.

A menina descobre que o pai está traindo a mãe com uma turista americana. A partir desse momento perde o respeito pelos homens e se sente desvalorizada, como o pai pode preferir uma estranha a sua mãe e sua família? Se sente traida e perdida, não sabe em quem confiar, projeta na mãe todo seu sofrimento e mesmo em silencio partilha a condição de traida e se identifica com ela. Passa a ajudar a mãe em suas bebedeiras e em uma noite pede no bar o mesmo drink que a mãe costuma tomar todas as noites.

Esse é o momento em que os adolescentes revivem um pedaço do complexo de Édipo, pois é nesse tempo em que vão se disvenciliar dos pais e partir para a ação. O longa mostra com enorme delicadesa esse momento, o momento de amadurecimento do ego. O fillme é todo passado como se o espectador tivesse no lugar da menina. Nos identificamos com todos os seus sentimentos e ficamos torcendo por ela, para que ela consiga resolver suas inquietações e tomar as decisões certas, acreditando realmente que a mãe é uma alcolatra infeliz com o casamento e não consegue sair dele e que o pai da garota encontrou a fuga com uma outra mulher e vai abandonar a família.

No fim a menina finalmente toma coragem e realiza uma ação que vai acalmar suas angunstias e esclarecer todas as suas fantasias, que até então eram as do espectador também. Ela finalmente toma coragem para falar com os pais e a verdade, o que era realmente real e fantasia vem a tona. Esse momento é o momento em que ela se liberta e finalmente pode vivenciar sua transição, se tornar mulher e se identificar com a figura real da mãe, diferente de suas fantasias e se prontificar para amar um homem idealizado como o pai real e não o da sua imaginação

Totem e Tabu

11 11UTC agosto 11UTC 2009

Em seu livro Totem e Tabu, publicado em 1913, Freud sugeriu um mito que explicaria o início das relações humanas, do Complexo de Édipo, da agressividade humana e da culpa. Ele imaginou que os homens primitivos viviam em grupos onde existia um macho dominante que comandava os outros machos que seriam seus filhos, davam as ordens e possuíam todas as mulheres desse grupo. Esses filhos dominados pela inveja e pela ânsia de poder bolaram um plano para matar esse pai primevo e se verem a frente do poder. Acontece que depois que o serviço foi feito se depararam com uma nova incógnita: e agora, como dividiram o poder entre eles? Tudo se transformaria em uma nova disputa que não teria fim jamais. Depois de constatarem a besteira que haviam feito se sentiram extremamente culpados pela morte daquele que era o seu líder e que os havia defendido.

Com esse mito, Freud resolvia todas as questões que o Édipo envolvia. Porém, será que ele estava livre de projeções? Em 1913 a sociedade era extremamente patriarcal, a mesma em que Freud foi criado e viveu toda a sua vida adulta. Como poderia ele ter imaginado um mito diferente? Sabemos que é quase impossível o homem pensar o mundo de maneira diferente de como ele vivenciou. Freud chegou muito longe com suas teorias psicanalíticas, conseguiu ultrapassar diversas barreiras do senso comum da época, mas talvez nunca tenha imaginado outro modelo de núcleo familiar.

O fato é que existem discussões sobre as sociedades primitivas e é acordo que foram vários os modelos familiares do homosapiens espalhados pelos continentes. Outra hipótese é de que as primeiras sociedades tenham desenvolvido maior capacidade de cooperação do que competição. Uma sociedade que precisava basicamente proteger a vida dos recém nascidos e da cooperação na divisão de alimentos não teria sobrevivido na intensa agressividade como imaginou Freud. A parte onde entram o autoritarismo e  força coerciva só teria surgido bem mais tarde, junto com a caça e noção de propriedade privada. Acredita-se que muitas das primeiras sociedades eram também matriarcais, pois se desconhecia o papel do homem na procriação e esse era um motivo para reverenciar a mãe, um dos indícios e uma das primeiras estátuas encontradas, a Vênus de Wiiendorf.

venus of willendorf

O Complexo de Édipo é uma teoria importantíssima da psicanálise e as pessoas que estão familiarizadas com ela sabem como ela realmente funciona e cria traços fundamentais na vida adulta. Mas tenho dúvidas quanto a sua forma exata. Hoje sabemos que o núcleo familiar modelo (pensado no Édipo) esta em crise, não faz mais parte de muitas famílias hoje, a diversidade de modelos é enorme e pode causar muitas conseqüências no psiquismo, imagino que bem diferentes das que Freud um dia conheceu. Acredito também que ele possa ser flexível e reajustável e que dependerá de como as crianças vivenciam sua infância em torno daqueles que as educam, sejam eles dois pais, duas mães, uma mãe autoritária e um pai passivo, só uma mãe ou só um pai. Em fim, gostaria de abrir uma discussão sobre o assunto!