Há lugar para a psicanálise no Século XXI?
19 19UTC outubro 19UTC 2009
Há lugar para a psicanálise no Século XXI? Sem dúvida, é uma das questões mais presentes no ambiente psicanalítico.
As dúvidas são pertinentes. A sociedade se modificou muito desde que a psicanalíse foi criada, ao redor dos anos 1.900, e a ciência enriqueceu o mundo com novos conhecimentos. Esses novos conhecimentos ameaçam a psicanálise?
Já são duas perguntas sem resposta. Não é mais possível omitir uma opinião.
Para mim, sem sombra de dúvida, as respostas são: SIM e NÃO, respectivamente.
SIM, há lugar para a psicanálise no Século XXI. NÃO, os novos conhecimentos não ameaçam a psicanálise.
As justificativas para as duas afirmações são simples.
Para mim, o que diferencia o homem (ser humano) dos animais é a linguagem. Isto quer dizer que a necessidade humana de falar é imperiosa e, portanto, o homem sempre procurará um caminho para suas angústias por meio da fala. A psicanálise é a terapia da cura pela fala. Portanto, ela oferece a todos nós uma alternativa compatível com a característica que nos distingue dos outros elementos do mundo animado.
Os novos conhecimentos proporcionados pela evolução científica não ameaçam a psicanálise. A psicanálise é uma ciência e, como tal, só pode se beneficiar do avanço científico. Ela tem a capacidade de evoluir com as novas descobertas.
É comum ouvir que a neurociência poderá explicar que a causa da depressão é uma disfunção neurológica de natureza X. Por que isso ameaçaria a psicanálise? Se a disfunção puder ser corrigida sem margem de erro por qualquer procedimento físico-químico, a psicanálise não se opõe. Pelo contrário, apóia. As perguntas a serem respondidas são: 1) Todas as disfunções poderão ser corrigidas, sem margem de dúvida, por procedimentos físico-químicos?; Todas os pacientes abrirão mão de sua natureza de homus loquax em favor de uma droga?
A psicanálise não pretende ser a única solução para os problemas dos seres humanos. Ela nem mesmo pretende ser uma solução. Ela é uma alternativa. Uma alternativa maldita, que responsabiliza o Homem pelos seus atos.
Talvez por isso, tentem desqualificá-la com tanta intensidade.
A psicanálise incomoda tanto porque desde o seu surgimento denunciou a sociedade. Tudo começou com a descoberta da sexualidade infantil; NOSSAS crianças nem são nossas, nem são anjinhos; e, …, nos tempos atuais, aponta para o vazio das pessoas e das relações.
Hoje mesmo, 17/10/2009, expresso meu desesepero: me cadastrei no Twitter e no Facebook. Ninguém me segue, ninguém me quer como amigo. Como viver esse vazio???
Há dúvida se há lugar para a psicanálise no Século XXI?
O que é o “Real”?
24 24UTC setembro 24UTC 2009
Fugindo um pouco da temática Edipiana, proponho uma rápida reflexão sobre o que é o “Real”?
Refiro-me ao conceito Lacaniano da tríade: Real, Simbólico e Imaginário.
É tido como o conceito mais difícil de ser explicado. No entanto, acho a explicação é simples se formos olhar em diferentes universos.
O primeiro universo é o de Kant que propôs o conceito de realidade e da coisa-em-si. Bion retoma este conceito e o simboliza por Ο (deveria ser um O caligráfico).
Freud utiliza muitas vezes o termo alma para designar o que anima o indivíduo, o próprio sentido de vida.
Proponho a equivalência: Real ↔ Ο ↔ alma.
O Édipo Feminino
10 10UTC setembro 10UTC 2009
Entre os temas da psicanálise mais fascinantes e menos compreendidos encontra-se o do Édipo feminino. Várias adaptações mal feitas do Édipo masculino podem ser encontradas na literatura que mais confundem do que esclarecem.
Uma explicação muito boa é a oferecida por J. D. Nasio, da qual reproduzo um breve resumo.
A travessia edípica da menina é dividida em quatro fases:
1. Tempo pré-edípico: a menina por volta dos 4 anos sente excitações clitorianas. Tem um Falo, está orgulhosa dele e se sente onipotente. Como um menino deseja possuir a mãe. A menina é um menino.
2. Tempo da solidão: diante de um menino nú, descobre que não tem o Falo. Sofre por estar desprovida dele. Se dá conta que sua mãe também está desprovida dele. A culpa por tê-la feito acreditar que as duas o possuiam. A mãe a enganou. Ressentida, se afasta da mãe. Agora se sente só e humilhada. Está ferida em seu amor próprio. Inveja o menino.
3. Tempo do Édipo: a menina volta-se para o pai, grande portador do Falo. No entanto, invejosa e ansiosa, exige que ele o dê. Ele nega. A menina compreende que nunca possuirá o Falo. Pede para que o pai a console. A ansiedade se transforma em desejo. A menina já não quer o Falo do pai; quer sê-lo; quer ser a preferida do pai. Desta forma, a menina se identifica com a mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade. A menina deseja ser possuída pelo pai.
4. Resolução do Édipo: o pai se nega. A menina dessexualiza o pai, mas incorpora a sua pessoa. Pouco a pouco a menina se faz mulher e se abre ao homem amado. Deixa de medir o seu sexo com um Falo mítico e descobre a vagina, o útero e o desejo de levar em seu ventre o filho de seu companheiro.
Na prática o clínica o Édipo feminino se manifesta de várias maneiras. É claro que não há um padrão, uma vez que as perturbações da travessia edípica podem se dar de diversas formas. No entanto, é muito comum o sintoma da mulher moderna, ativa, que priorizou a vida profissional. É possível reconhecer uma regressão ou fixação edípica?
A Deriva
24 24UTC agosto 24UTC 2009

O novo filme de Heitor Dália, diretor também do Cheiro do Ralo, é uma ótima opção para ir ao cinema. Além da fotografia que é bastante poética, do figurino que vai trazer lembranças para que viveu na década de oitenta, o filme tem um roteiro repleto de dilemas adolescentes e adultos.
Felipa é uma adolescente de 14 anos que passa as férias de verão com a família em uma casa na praia. O pai é um famoso escritor frances, a mãe professora e seus dois irmãos mais novos. Em meio a suas descobertas amorosas, primeiro beijo, transformação do corpo e brigas constantes dos pais a menina descobre que eles estão prestes a se separar.
O filme envolve inúmeros conflitos internos e externos. Felipa está em transição com o corpo e a mente, deixa de ser uma criança para se tornar uma mulher e passa a se envolver com todo tipo de responsabilidade e questões que essas mudanças requerem. Tomar atitudes, formar opiniões, fazer escolhas e aceitar as perdas.
A menina descobre que o pai está traindo a mãe com uma turista americana. A partir desse momento perde o respeito pelos homens e se sente desvalorizada, como o pai pode preferir uma estranha a sua mãe e sua família? Se sente traida e perdida, não sabe em quem confiar, projeta na mãe todo seu sofrimento e mesmo em silencio partilha a condição de traida e se identifica com ela. Passa a ajudar a mãe em suas bebedeiras e em uma noite pede no bar o mesmo drink que a mãe costuma tomar todas as noites.
Esse é o momento em que os adolescentes revivem um pedaço do complexo de Édipo, pois é nesse tempo em que vão se disvenciliar dos pais e partir para a ação. O longa mostra com enorme delicadesa esse momento, o momento de amadurecimento do ego. O fillme é todo passado como se o espectador tivesse no lugar da menina. Nos identificamos com todos os seus sentimentos e ficamos torcendo por ela, para que ela consiga resolver suas inquietações e tomar as decisões certas, acreditando realmente que a mãe é uma alcolatra infeliz com o casamento e não consegue sair dele e que o pai da garota encontrou a fuga com uma outra mulher e vai abandonar a família.
No fim a menina finalmente toma coragem e realiza uma ação que vai acalmar suas angunstias e esclarecer todas as suas fantasias, que até então eram as do espectador também. Ela finalmente toma coragem para falar com os pais e a verdade, o que era realmente real e fantasia vem a tona. Esse momento é o momento em que ela se liberta e finalmente pode vivenciar sua transição, se tornar mulher e se identificar com a figura real da mãe, diferente de suas fantasias e se prontificar para amar um homem idealizado como o pai real e não o da sua imaginação

